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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Virou o Líquido Goela Abaixo

Virou o líquido goela abaixo. A bebida ardida queimando a garganta. Encheu novamente seu copo. Virou o líquido goela abaixo. A bebida parecia ter ficado mais fácil de ser diluída. Encheu novamente o copo. Virou o líquido goela abaixo. Começava a degustar aquele sabor. Encheu novamente o copo. Virou o líquido goela abaixo. Estava ficando adocicado, saboroso, delicioso. Encheu novamente o copo. Virou o líquido goela abaixo. A coragem leviana derramando, a boca calada almejava falar, gritar, berrar. Encheu novamente o copo. Virou o líquido goela abaixo. Estava irrecusável a próxima virada. Encheu novamente o copo. Virou o líquido goela abaixo. As palavras estavam ficando espinhosas, como queria descontar em algum ouvinte. Encheu novamente o copo. Virou apenas metade da substancia alcoólica. O paladar não diferenciava mais o sabor, salivava. A fragrância de álcool evaporou do céu da boca para o ambiente. O bar não estava lotado, o barman já não aguentava servir garrafas para o ébrio, uma mosca pousou na lâmpada. Estava sem equilíbrio, sem noção da realidade, a fala afetada, inteligível. Afastou o copo num empurrão, quase quebrando a superfície de vidro do objeto, deixando-o levemente trincado. Lembrou da esposa, xingou-a mentalmente. Já havia dois dias que a mulher não havia lhe dado mais dinheiro. Xingou de todos os nomes possíveis. Lembrou do pedido suplicante da mulher, uma versão mais jovem dela desenhou-se em sua mente. Apenas recordou do barulho das batidas na porta, uma expressão chorosa e uma leve garoa. Xingou-a por ter interrompido sua soneca da tarde. Lembrou da filha, xingou-a mentalmente. A ingrata tinha lhe disparado uma ofensa semana passada. Culpou a menina pela má educação, a garotinha que lhe presenteava com cartões e meias já não existia mais. Observou a gota de água escorrer na ultima garrafa aberta no balcão. O vidro amarronzado chamando-o para uma nova sessão descontrolada de bebedeira. Rendeu-se ao pedido silencioso. Encheu novamente um copo limpo. Virou o liquido goela abaixo. Cambaleante, retornou para casa. Na casa, a esposa colocava seus fones de ouvido, choramingou em silencio quando ouviu o portão ser aberto. A filha trancou-se no quarto, também com fones de ouvido. Ela não podia acreditar que presenciaria novamente o mesmo show. O monstro que tomava forma após algumas doses de álcool. Um longo uivo preencheu a casa, a noite seria longa. Todas as noites eram longas. A menina pegou um copo de água com a mão direita e um comprimido com a esquerda. Despejou o remédio na língua. Virou o líquido goela abaixo.
(Autoria própria).